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Necessidade, Desejo e Capitalismo

 

(Resumo feito pelo padre Dejair de Rossi, para os alunos do curso de Teologia para Leigos, Centro Loyola de Belo Horizonte, do capítulo "Desejo Mimético, Exclusão Social e Cristianismo" do livro de Mo Sung, Jung - Desejo Mercado e religião, ed. Vozes, 1998. p. 46-72). Se não estiverem de acordo com a plublicação aqui nesse site do resumo, por favor, contatem-me que retirarei imediatamente. Concordando, fico desde já muito grata.

 

1. Desejo e Necessidade:

É comum ouvir-se da parte de políticos, economistas, líderes sindicais, pessoas da Igreja e outras autoridades, que no Brasil cresce a diferença entre pobres e ricos e aumenta a exclusão social, fazendo-se necessária a distribuição de rendas. Tal necessidade torna-se ainda mais premente quando se constata que vigora no Brasil um modelo econômico voltado para a superação da pobreza. Como sublinha Cristóvão Buarque: "A teoria econômica do Brasil jamai se orientou para o problema da riqueza. Com teorias importadas dos países ricos, na Ciência Econômica Brasileira, jamais aparece a palavra fome, apenas salários e preços: o objetivo do processo econômico não é satisfazer necessidades básicas, mas aumentar o consumo; a eficiência não está em aumentar a alimentação, mas em produzir para a exportação".

Ora, um crescimento econômico baseado na lógica do mercado jamais beneficiará os escluídos. Por que? Porque enquanto para uns a distribuição de renda e a integração dos excluídos parece algo óbvio de ser buscado, para outros, não. É que "a distinção entre ter demais e ter de menos pressupõe um limite que separa os dois lados. Este limite seria para os defensores da distribuição de renda e das reformas estruturais da sociedade o necessário para uma vida digna. Portanto, o pensamento parte do conceito de necessidade humana". É exatamente sobre o conceito de necessidade humana que há divergência. Aqueles que têm muito, acham que não têm, por isso rejeitam qualquer política que signifique diminuição da renda ou de riqueza em benefício dos excluídos.

Por que ocorre isso? O que o provoca? Nada mais, nada menos do que a confusão entre desejo e necessidade. Confusão presente não apenas entre pessoas simples e pouco letradas, mas também entre estudiosos de economia. P. Kotler, um dos mais importante do mundo do marketing, afirma: "Quando uma necessidade não é satisfeita, uma pessoa procurará um objeto que a satisfaça ou tentará reduzi-la. Os indivíduos que pertencem às sociedades industriais podem tentar encontrar ou desenvolver objetos que satisfarão os seus desejos. As pessoas das sociedades menos desenvolvidas possivelmente tentarão reduzir ou satisfazer seus desejos com o que estiver disponível". Ele começa falando de necessidade e termina falando de desejo. Simplesmente passa de um conceito para outro como se fossem sinônimos.

Outro exemplo é Pierre Vervier, também economista, interessado no diálogo entre fé e economia. Num artigo sobre "Escassez, felicidade e mercado: ensaio de diálogo entre fé e economia", assume explicitamente a confusão entre desejo e necessidade, e escreve que "as necessidades se apresentam de forma absolutamente ilimitadas". Deste modo, Vervier compactua com o pensamento econômico contemporâneo que reduz o ser humano a desejos, sem necessidades corpóreas. Como diz Fraz Hinkelammert, "tanto o pensamento econômico neoclássico quanto o neo-liberal pressupõem que o homem não tem necessidades, mas unicamente gostos. Por esse enfoque, o homem não apresenta a exigência de satisfazer suas necessidades de alimentação, roupas, etc, mas unicamente gostos ou preferências, que lhe permitem preferir a carne ao peixe, o algodão à fibra sintética".

Ora, tal identificação entre desejo e necessidade não só esvazia o conceito de necessidade humana, como contradiz o evangelho, onde a preocupação com as necessidades básicas se constitui num dos critérios de salvação (Mt 25, 30-40) e o exemplo da Comunidade Primitiva é evidente: "Não havia necessitados entre eles" (At 4,32-35).

Ademais, quando desejo e necessidade perdem a diferença, seja pela dificuldade de estabelecê-las ou por opção teórica, fica difícil dialogar sobre distribuição de renda. Sirva de exemplo o caso de alguém que reside numa casa de 200 mil reais, tem outra alugada no valor de 100 mil, dispõe de um carro de 50 mil e mais 100 mil reais de aplicações. Pelo critério de necessidade, este homem já tem mais do que precisa, mas pelo critério do desejo, não. Ainda falta muito para realizar o seu sonho de uma casa de 500 mil reais, de um carro de 120 mil, de outra casa de aluguel de 150 mil e de mais de 300 mil de aplicações. É que quando se pensa a partir dos desejos, não há limites. Busca-se o ilimitado e nada sobra para partilhar. Sempre falta. Portanto, não há entendimento sobre distribuição de renda e riquezas.

2. Desenvolvimento Econômico e Desejo Mimético:

Se é verdade que sem distribuição de renda e de riquezas não conseguiremos resolver nossos problemas sociais, também é verdade que a concentração de rendas é determinada pelo processo produtivo.

Quando nos voltamos para a recente história do Brasil, constatamos que vigorou, do término da Segunda Guerra até a década de 70, o modelo de desenvolvimento denominado de "substituição de importações. De acordo com este modelo, o objetivo era implantar o mesmo desenvolvimento econômico praticado nos países da chamada "revolução industrial" (Europa e EUA) e levar as massas dos países do terceiro mundo ao mesmo padrão de consumo da maioria rica dos países ricos. O resultado foi, além da disseminação da ânsia consumista na consciência da humanidade e da identificação da atividade econômica com o processo civilizatório, o agravamento da concentração de renda e da riqueza já existente e o inevitável dualismo social: incluídos, excluídos.

Com a crise da dívida externa do início dos anos 80, passamos do chamado "desenvolvimentismo para o ajuste econômico", isto é, a manutenção dos padrões de consumo da elite dos países ricos e a busca de adequação de nossa economia às demandas do mercado internacional. Com isso, expande-se a desigualdade tecnológica e a dependência financeira, e alarga-se a dependência cultural, mediante a cópia dos padrões e consumo e de comportamento difundidos nos centros hegemônicos. Consequentemente, há maior concentração de renda e maior exclusão social, pois, devido à diferença de produtividade existente entre os países tecnologicamente avançados e nós, a concentração de renda é o único meio de as elites nacionais aculturadas alcançarem a renda média necessária para ascender aos níveis de vida opulentos das economias centrais. E quanto maior o hiato entre desenvolvidos e subdesenvolvidos, tanto maior a desigualdade social necessária.

Por que isso ocorre?

É que no centro desse dualismo ou exclusão social, está o problema da imitação ou da mimesis na dinâmica econômica. "Assumimos os que se auto-intitulam desenvolvidos como nosso modelo a ser imitado e nos alienamos de nossa realidade e identidade. Este desejo mimético tem guiado a nossa economia e gerado uma concentração brutal de renda e um dualismo social e econômico. O resultado é o surgimento de dois brasis, separados por processos produtivos e distâncias tecnológicas.

O problema é que não é fácil superar este desejo mimético de consumo ou de apropriação porque ele está no centro da modernidade em que vivemos, modernidade que se caracteriza pelo mito do progresso e a construção de um novo tipo de utopia. Acredita-se que pelo progresso tecnológico será possível realizar todos os desejos humanos atuais e ainda por vir.

Como?

Imitando o desejo de consumo das elites, a maioria deseja também consumir as novidades do progresso. Assim, o progresso vai na direção da ampliação da produção destes bens para as massas, pois, o que é hoje desejo, capricho e luxo de uns poucos, será necessidade pública amanhã (Hajam vistos os celulares). Deste modo a produção econômica deve estar voltada para satisfazer os desejos das elites, pois estes serão as futuras necessidades das massas. E para a massificação destes bens é indispensável o progresso. Porque desejamos o que os outros já possuem e nos esforçamos por consegui-lo, existe o progresso. O desejo mimético é o seu propulsor.

Convém esclarecer que o incentivo do desejo mimético na sociedade não é algo abstrato e generalizado, mas concreto e determinado. Porém, não é qualquer desejo que a sociedade aceita, mas somente aquele que o próprio mercado cria. O mercado é assim o própiro critério para desejos aceitáveis ou não.

Contudo, não há garantia de resultados positivos na lógica do desejo e na dinâmica da economia moderna. E o motivo é simples. É que "a estrutura básica do desejo mimético consiste em que eu desejo um objeto não pelo objeto em si, mas pelo fato de que outro o deseja também. Sendo assim, o objeto desejado por outros é sempre escasso em relação aos sujeitos do desejo. E porque é escasso é que é objeto de desejo. Cria-se assim uma rivalidade entre dois que desejam o mesmo objeto. Esta rivalidade ou confltio tem o nome moderno de concorrência. Concorrência essa que os economistas liberais chamam de propulsora do progresso". E como na dinâmica econômica capitalista há sempre novidades que são objeto de desejo, a escassez é um fato básico; e a frustração, rivalidade e violência daí decorrentes, além de inevitáveis, são cruéis porque, embora desperte o desejo em todos, poucos o realizam.

Na verdade, a economia capitalista baseada no desejo frutra todo mundo. Mesmo os integrados no mercado vivem uma eterna insatisfação porque o seu modelo de desejo sempre está inovando no seu consumo, o que os leva sempre a correr atrás de mais consumo. Trata-se, pois, de uma corrida sem fim, rumo ao consumo infinito para tentar satisfazer de modo pleno e definitivo todos os desejos.

Por que então manter esta dinâmica progresso-desejo-mimético, se o resultado é frustração de muitos, para não dizer de todos?

A resposta está no mito do progresso da modernidade. Acredita-se que somente através de um rápido progresso material, é possível evitar conflitos internacionais graves. A paz do mundo, e com ela a civilização, dependem de um progresso contínuo a um ritmo acelerado. Nese caso, não somos apenas criadores do progresso, mas também seus prisioneiros. Portanto, não há saída: deve-se continuar esta rota que tantos outros tratam de seguir, apesar da ameaça ao equilíbrio ecológico e da exclusão de muitos. É o sacrifício necessário para o progresso, dizem.

Ao absolutizar assim o mercado e a sua lógica, contra a qual nada podemos fazer e nem nos opor, os neo-liberais acabam gerando, no dizer de F. Hinkelammert, "uma impotência da onipotência", isto é, a impossibilidade de opor qualquer resistência a ela e nem tentar um direcionamento em vista da integração de mais pessoas, da sobrevivência dos excluídos e do meio ambiente.

Diante desta situação por que manter este modelo econômico? Como explicar esta adesão e a passividade das massas a esse modelo de desenvolvimento?

3. Promessa do paraíso e sacrifícios necessários?

Três hipóteses tentam responder às questões levantadas. A primeira diz respeito à postergação das promessas para o futuro. Faz parte da lógica dos mitos do progresso e do desenvolvimento adiar ou projetar para o futuro a satisfação das necessidades. A única condição é que haja sinais visíveis de progresso que garantam a esperança das massas de ver um dia seus desejos realizados.

A segunda hipótese refere-se à incentivação dos desejos miméticos na sociedade moderna: os indivíduos são incentivados a buscar ou tentar desenvovler objetos que satisfarão seus desejos, ultrapassando, se necessário, os tabus religiosos, os interditos culturais, as proteções legais. Com isso, a frustração de não realizar o desejo mimético acaba sendo explicada em termos individuais. O indivíduo, frustrado, internaliza o sentimento de culpa pelo seu fracasso; percebe a sua situação como frutos de sua incapacidade e não como resultado de um modelo de desenvolvimento adotado. Consequentemente, não se rebela contra este modelo, que ele continua vendo como único caminho para realizar, no futuro, os seus desejos.

A terceira hipótese diz respeito aos sacrifícios necessários para o progresso exigidos pela lei do mercado: "Se o progesso é fruto da concorrência e da lei da sobrevivência dos mais competentes na dinâmica do desejo mimético, decorre daqui uma dedução lógica: o sacrifício dos menos competentes passa a ser uma necessidade da dinâmica do próprio progresso". Este discurso dos sacrifícios necessários é eficaz porque leva as pessoas a internalizarem o sentimento de culpa, aceitando ser vítimas dos sacrifícios necessários; o que, em contrapartida, dá boa consciência aos setores sacrificadores ou beneficiários, que, de um lado, se julgam merecedores de recompensa e, de outro, julgam que os pobres são também merecedores dos sacrifícios impostos a eles. É a teologia da retribuição.

A esta altura, estamos plenamente envolvidos com o problema da secularização da sociedade moderna. Acredita-se que não temos mais a presença do sagrado no âmbito público, político e econômico, pelo fato de as religiões não serem mais o fundamento da ordem social. Na verdade, isso é um equívoco. Se levarmos em conta que a imanentização escatológica medieval, esperada pela ação divina intermediada pela Igreja, passou a ser esperada como resultado do progresso, e, no mundo capitalista, este progresso redentor é esperado no e através do mercado, conclui-se que houve um deslocamento do sagrado da Igreja para o mercado. Razão pela qual o discurso dos sacrifícios necessários hoje vem associado mais ao campo econômico do que ao campo religioso tradicional.

No entanto, como demonstrou René Girard, em seus estudos sobre o sagrado e a violência, o mecanismo sacrificial foi eficiente para as sociedades arcaicas superarem as suas crises porque as pessoas não tinham consciência dele. O mesmo acontece hoje. O mecanismo sacrificial é eficiente na manutenção da ordem social porque a maioria não tem consciência dele, e nem sequer admite a existência de mecanismos sacrificiais porque há uma certeza da culpabilidade das vítimas, seja por parte do sistema sacrificial, seja dos próprios sacrificados.

É bom esclarecer, contudo, que, quando falamos que o sistema capitalista utiliza-se dos mecanismos sacrificiais, não entendemos que tais mecanismos sãos iguais aos das sociedades arcaicas. Há diferenças. "Com a cristandade foi introduzida no ocidente uma noção radicalmente nova: a noção de um mundo onde não há mais escassez e, por isso, todos os desejos são satisfeitos (paraíso) e, portanto, não se necessita mais de sacrifícios. Surge assim a noção de último sacrifício, o de Jesus, e da sociedade sem sacrifícios". Tal noção acontece na passagem das sociedades pré-modernas às modernas. Como, porém, as sociedades continuam tendo problemas de escassez e os desejos miméticos continuam não satisfeitos, reformula-se a noção de sacrifício. "A postergação da parusia é creditada à existência dos pagãos, que ainda celebram sacrifícios sem aceitar o sacrifício definitivo de Jesus. Assim, se busca a conversão obrigatória de todos os pagãos e sacrifica-se os sacrificadores para apressar a chegada do paraíso. Agora sacrifica-se não mais para reprimir e controlar os desejos miméticos, mas sim para realizá-los". Por isso a modernidade, com o progresso técnico-econômico e o incentivo do desejo mimético, exige mais sacrifícos para manter a estabilidade e uma ordem que vive em permanente crise. De sorte que o sacrifício dos menos competentes, dos que são excluídos da dinâmica econômica é uma necessidade do progresso. Como também é necessário o sacrifício daqueles que não se submetem a estas leis do mercado e daqueles que não aceitam a sacralidade do mercado e pretendem nele intervir em nome das metas sociais e da justiça social.

4. Tabus e Dignidade Humana:

De acordo com René Girard, uma característica importante da solução sacrificial religiosa pré-moderna é a elaboração de tabus que normatizam as ações dos membros da comunidade, proibindo o desejo de objetos que podem gerar a crise mimética. O exemplo clássico é o tabu do incesto. Quem rompe com os tabus fundamentais não é humano; por isso, não tem direitos ou dignidade humana. O mesmo acontece hoje. De que jeito?

Na sociedade moderna capitalista o desejo, gerado pelo mercado, é incentivado, o que não quer dizer que não existam mais tabus. Apenas mudaram de forma. De proibidos passaram a obrigatórios. É o caso do tabu sexual: do "não pode', passamos ao "você deve". No campo econômico, o tabu é: "compre, compre mercadoria de griffe". E quando a pessoa adquire mercadoria de griffe, (o desejo mimético de todos, portanto tabu), ela é reconhecida, adquire status, tem dignidade, valor, pertence à comunidade humana. De modo que as pessoas, ao comprar grife, não compram o objeto, mas aquilo que o objeto esconde; vão em busca de ser gente, daquilo lhes possibilita serem reconhecidas nas relações com outras pessoas da comunidades que vivem sob esse tabu. Assim, um objeto de desejo transforma-se em objeto de necessidade.

Aqui convém lembrar dois elementos: a) a diferença entre necessidade objetiva para reprodução de nossa vida corpórea (comer, beber, dormir) e necessidade introjetada pelo desejo mimético (condição de pertença à comunidade ou ao grupo). A primeira, se não for atendida, mata independentemente do nosso querer ou não. A segunda, também mata quando transformada em necessidade por problemas culturais ou psíquicos. b) Distinguir entre objeto desejado e a condição de possibilidade de alcançá-lo. Usar uma roupa de grife é condição de possibilidade de um desejo vir a ser transformado em realidade.

Ora, a condição primeira para que alguém possa desejar algo é que esteja vivo. Um morto não deseja. Isso significa que satisfazer as necessidades básicas é condição primeira. Contudo, além de estar vivas, as pessoas precisam sentir-se vivas. É aqui que entram as necessidades sociais e psíquicas. São elas que movem as pessoas a buscar energias para lutar . É o desejo que atrai as pessoas. Ao passo que as necessidades as empurram.

Além disso, convém lembrar também o caráter místico da mercadoria, que Marx chamava de fetiche; aquele elemento misterioso e transcendente que existe por trás de um objeto, e que nos encanta e atrai. É em vista deste elemento misterioso projetado nas mercadorias, que as pessoas não compreendem a redistribuição de rendas ou as reformas estruturais profundas; que os pobres, que não o alcançam, vivem o sentimento de inferioridade ou de culpa, de impotência e incapacidade de lutar pelos seus direitos.

Conclusão:

O que podemos fazer diante desta situação?

Pelo que expusemos até agora, lutar pela vida dos pobres de nossas sociedades, requer uma urgente redistribuição de rendas e de riquezas, o que implica numa mudança no sistema produtivo e em profundas reformas na estrutura econômica, social e política. Mas, para isso é necessário desmascarar o mecanismo sacrificial do desejo mimético. Sem isso, dificilmente colocaremos a satisfação das necessidades básicas da população como prioridade econômica e política.

Conforme também vimos, o desejo é algo constitutivo do ser humano e tem uma dinâmica mimética. Isso significa que o mimetismo de consumo, uma das causas do nosso dualismo, não será eliminado por decreto ou revolução. Trata-se de um componente antropológico e social com o qual temos de aprender a lidar. Ora, uma forma possível de se lidar com este processo em vista da superação social é desmascará-lo, revelando a sua presença escondida em nossa cultura de consumo exacerbado. E, a partir disso, estabelecer políticas e leis que delimitem a satisfação do desejo de consumo de bens de luxo que causam e dificultam o desenvolvimento econômico voltado para a população.

Para que este direcionamento da sociedade seja consenso convém relativizar o desejo mimético de apropriação, pois no capitalismo ele está assumindo a condição de totalidade, atingindo até as relações pessoais, transformando as pessoas em coisas e em objeto de apropriação.

Relativizar, porém, o desejo mimético de apropriação não significa querer acabar com ele, mas limitá-lo, ao colocar em destaque outro tipo de desejo mimético, como o desejo de ser como pessoas que assumimos como nosso modelo de mestre. Trata-se, em outras palavras, de relativizar a lógica do TER pela do SER, isto é, de buscar uma sociedade centrada em torno de pessoas e não de objetos.

E para que a dimensão humana e qualitativa da vida seja mais valorizada na sociedade, para que o desejo não seja canalizado somente no ter, faz-se necessário pessoas exemplares, tipo Francisco de Assis, Vicente de Paulo, Tereza de Calcutá.... Elas servem de espelho nos quais os sonhos, que encorajam as práticas e os valores que alimentam as grandes motivações, se mostram convincentes e conferem sentido para viver, sofrer, lutar e esperar.

 

Além de distinguir ser e ter, necessidade e desejo, é preciso também restabelecer a inocência das vítimas, desmascarar o sistema sacrificial e a perversidade da lógica e das leis de mercado e afirmar a responsabilidade de todos aqueles que se beneficiam do mercado e o adoram. Pois só uma instituição transcendentalizada e idolatrada poderia pedir tantos sacrifícios humanos em nome de um futuro paraíso, e gera tanta consciência tranquila aos seus adoradores e defensores. Estar do lado das vítimas, ajudando-as a reconstruir a sua dignidade humana negada, nos permite ver, (isto é, efetuar uma revolução espistemológica), que Deus não quer sacrifícios, mas misericórdia (Mt 9,13), que não nos tornamos mais humanos porque compramos mercadorias que outros desejam, mas sim porque buscamos o encontro solidário com nossos irmãos; e que o pecado consiste exatamente no cumprimento da lei (do mercado).

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