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A VIOLÊNCIA NA TELEVISÃO


Há coisas líquidas e certas - pessoas violentas em geral têm uma história de vida em que a violência foi moeda corrente: moravam em regiões perigosas, seu cotidiano foi repleto de cenas de agressão, frequentavam escolas que também eram palco de brigas e confusões. Quem comete abuso sexual tem grande chance estatística de ter sido vítima de violências sexuais na infância. Quem presenciou agressões físicas entre os pais tende a repeti-las em seus próprios relacionamentos amorosos. Até aqui, não á nada que nos surpreenda: nossa história de vida marca e molda nosso psiquismo, nosso modo de ser, de ver o mundo e de viver.

Uma dúvida sempre se mantém no ar, apesar de toda a evidência científica já produzida: a violência a que se assiste na televisão seria capaz de influenciar a agressividade dos telespectadores? A preocupação com os efeitos negativos da exposição prolongada à programação violenta na televisão surgiu pouco depois que as transmissões começaram, em meados da década de 40, nos Estados Unidos. Vale notar que até há três décadas a programação era muito diferente da atual. Os filmes exibidos eram basicamente românticos ou de aventura - neles até podia haver mocinhos e bandidos, roubos, tiros; mas nunca havia histórias em que se perde a conta do número de mortos, em que um só personagem é capaz de matar mais de cem pessoas no breve período de um filme. Programas de televisão e filmes violentos podem ser definidos como aqueles que mostram pessoas tentando, intencionalmente, infligir danos em outras pessoas.

Já houve, nos Estados Unidos, vários estudos nacionais tentando quantificar a violência mostrada na televisão, o último deles em 1998. Algumas das descobertas mais immportantes são citadas no artigo "O impacto de programas de televisão e filmes violentos", do Dr. Brad J. Bushman, professor de Psicologia na Iowa State University: a análise de mais de 8.000 horas de programação de televisão mostrou que 60% dos programas exibidos pela TV aberta e a cabo podem ser considerados violentos. Quase metade dos atos de violência são perpetrados por personagens "bons", embora três quartos deles não demonstrem nenhum remorso pelo que fizeram. mais da metade das vítimas não aparenta sofrimento ou dor. Embora mais da metade das cenas de violência na televisão fossem letais, cerca de 40% delas eram objeto de intenções humorísticas…

O nível de violência presente nos filmes e na televisão é muito maior que o do mundo real. Desde 1972 já se sabe que a violência televisiva tem efeito adverso sobre os telespectadores. Estudos experimentais demonstram que a mídia violenta aumenta a agressividade de forma generalizada, sendo que os espectadores mais novos e aqueles caracteristicamente agressivos são especialmente vulneráveis. Crianças novas são particularemente afetadas, pois são muito impressionáveis, têm dificuldade de separar a realidade da fantasia e de compreender os diferentes motivos para a agressão - vingança, raiva, inconsequência ou auto-defesa, por exemplo. Os mesmos efeitos negativos se estendem aos VIDEO GAMES violentos.

No último estudo realizado, os pesquisadores concluíram que assistir a três ou mais horas de televisão por dia, aumenta o risco de violência em adolescentes e jovens adultos, e que este risco é tanto mais sério quando maior for a exposição à programação violenta. A pesquisa envolveu o acompanhamento de 707 famílias durante um período de 17 anos, sendo o mais abrangente, até o momento, sobre os efeitos da violência na televisão em crianças, adolescentes e jovens adultos. Demonstrou, pela primeira vez, que esses efeitos não se limitam à infância, mas persistem na idade adulta.

Alguém viu ou ouviu alguma repercussão na mídia sobre o referido estudo? Aposto que não… No jornal Washington Post, ele não mereceu mais que uma pequena menção, como se fosse assunto sem maior importância.

Creio estarmos diante de um caso de autocensura, por razões corporativistas, de um tema vital para o mundo, varrido que está por uma onda de violência sem precedentes. Nada explica a pouca importância dispensda ao tema. Não se trata de apenas MAIS um estudo - é o mais abrangente já feito até hoje e teve a duração de 17 anos.

Televisão vende. Tanto é assim que seu espaço comercial é o mais caro de toda a mídia. Se vende geladerias, carros, sabão em pó, por que não venderia também o comportamento violento que exibe nos filmes e até nos desenhos animados? A televisão tem patrocinado a verdadeira usina da violência em que se transformou a indústria cinematográfica. Sendo veículo poderoso, que influi sobre o comportamento humano, não pode ser dispensada de considerações éticas para com a sociedade.

autora: Cibele Andrade Ruas, psicóloga clínica.

Publicado aqui com permissão da autora, retirado da revista "Encontro" no. 4, de junho/2002.

 

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