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"A PROPOSTA É MUDAR O MUNDO"

 


 

"A PROPOSTA É MUDAR O MUNDO"

(texto por Glauco Faria - extraído da Revista Forum, no. 4, 2002 - conforme nota no rodapé da pag. 3 da revista, a divulgação dos artigos é autorizada, desde que se mencione a fonte. Para assinar, envie e-mail para a Revista.)

No texto de encerramento do primeiro Fórum Social Mundial, o escritor Luiz Fernando Veríssimo dizia algo que parecia óbvio: o Ser Humano é a medida de todas as coisas. Esse simples enunciado tinha sido posto de lado pelos profetas do neoliberalismo e do culto ao indivíduo, mas acabou resgatado com o FSM 1 (Forum Social Mundial 1). Uma nova esperança crescia e o Pensamento Único sofria o seu golpe mais duro após o fim da Guerra Fria.

Com o restabelecimento do Parâmetro Humano, citado por Veríssimo, qual seria a missão do segundo Fórum Social Mundial? O que poderia trazer de novo para a luta contra a moral do mercado e a liberdade do lucro? De acordo com a própria organização, a segunda edição tinha a intenção de ser mais propositiva, traduzindo de forma concreta o espírito do encontro. O objetivo foi atingido. Nos quase mil seminários, conferências e oficinas não faltaram propostas.

Uma delas, por exemplo, já vem dando resultado em diversas partes do mundo, como o orçamento participativo, praticado, em muitas cidades, como Porto Alegre. O próprio Fórum promoveu experiência semelhante com a Assembléia Pública Mundial sobre os Gastos de Guerra, que decidiu que os 800 bilhões de dólares anuais gastos com essa indústria deveriam ser redirecionados para a eliminação da fome, erradicação do analfabetismo e eliminação do trabalho infantil, prioridades eleitas por 4.495 pessoas.

O orçamento participativo também seria uma das formas de decidir em que seriam usados os 100 bilhões de dólares arrecadados com a implantação da Taxa Tobin, segundo o representante da Attac francesa Bruno Jetin.

Houve propostas para quase todas as questões que tocam a humanidade. Da área ambiental ao combate ao narcotráfico. O procurador italiano Roberto Scarpinato, por exemplo, defendeu a necessidade da criação de um Direito Penal Internacional (DPI) para o combate ao tráfico de drogas no mundo, espécie de globalização jurídica para balizar a globalização econômica. Ou seja, o evento não teve nada de circo exótico que parte da imprensa nacional tentou pintar.

Oded Grajew, um dos idealizadores do Fórum e presidente do Instituto Ehos de Responsabilidade Social, acha que não há lógica nesse tipo de cobrança. Na sua opinião, em primeiro lugar o Fórum não é um espaço só para construir propostas. "Tem vários objetivos: debater idéias, apresentar propostas e articular pessoas para manifestações em conjunto, por exemplo." E relaciona propostas que se tivessem sido encaminhadas já no ano passado poderiam ter alterado o rumo da história mundial. "Se nossas propostas tivessem sido ouvidas e a política do FMI e do Banco Mundial em relação à dívida externa fosse modificada a Argentina não estaria na atual situação. Se nossas propostas de eliminar os paraísos fiscais tivessem sido implementadas cortariam-se as fontes de financiamento dos terroristas. Se nossas propostas, como a criação da Taxa Tobin para eliminação da fome, tivessem sido executadas, de lá para cá 30 mil crianças baixo de 5 anos deixariam de ter morrido todos os dias. Basta fazer as contas e ver quantas morreram em um ano. Propostas não faltam, o problema é outro", garante.

Avaliação próxima tem o sociólogo Emir Sader. "Como alguém pode dizer isso sem ter acesso a todos os debates. Propostas não faltam, mas considero que o próximo Fórum deve centrar-se mais em alguns temas, ser menos dispersivo e mais democrático para que as pessoas possam participar e decidir mais a respeito dos seus caminhos. Já andamos bastante nesse sentido e acredito que vamos ter dado mais alguns passos na próxima edição", entende.

Debate aberto

Parte da grande imprensa também tentou criar polêmica mostrando que no Fórum havia gente com pensamento diferente a respeito de diversas questões. Como se não residisse na diversidade a grande força do encontro.

Há quem defenda, por exemplo, a adoção de um objetivo central para as ações dos movimentos sociais. "O Fórum precisa perder esse caráter de feira, em que as organizações vêm 'vender' idéias, cada uma com sua barraquinha. É preciso que se torne efetivamente um foco de poder político", argumenta o filósofo e professor da USP Paulo Arantes. Para ele, a cobrança de que Porto Alegre tenha um caráter mais propositivo não é o maior obstáculo. "O Fórum sempre teve propostas, na verdade, talvez tenha em excesso. Acho que devemos passar por um processo análogo ao que aconteceu na época de Karl Marx, quando existiam diversas idéias dispersas em sociedades secretas de trabalhadores e na imprensa. Todos criticavam a situação, mas não havia um eixo central nessa crítica. Então, Marx apareceu com a idéia de que o problema todo era o trabalho assalariado. Num primeiro momento houve crítiacas, mas o movimento acabou se unificando e tornando-se um foco de poder. Esse deve ser o caminho do Fórum", sustenta.

O belga François Houtart, coordenador do Fórum Mundial de Alternativas, tem opinião um pouco diferente. Acha que da primeira para a segunda edição do Fórum aconteceram mudanças significativas. "O que se afirma aqui de maneira muito forte é que há uma alternativa à economia de mercado capitalista. Isso é muito importante e está repercutindo nos meios mundiais de comunicação. E algo já mudou. A cultura de que não há alternativas não é mais hegemômica." Houtart também entende que há uma ansiedade muito grande por parte de alguns para que as coisas mudem rapidamente, mas que a dinâmica da história é diferente. "O capitalismo demorou 400 anos para construir as bases materiais da sua própria revolução, ou seja, a industrialização etc. Não podemos pensar que o modo de produção socialista vai poder realizar-se em um dia de revolução. Nem tão pouco em cinquenta anos. Estamos fazendo a coisas e precisamos continuar. Acho que o Fórum está cumprindo muito bem o seu papel."

Mobilização e paz

Passeatas, caminhadas contra a Alca, argentinos protestando contra a situação econômica de seu país e palestinos pedindo o fim da ocupação de seus territórios. Neste segundo Fórum, os 51.300 participantes fizeram manifestações das mais diversas formas, com criatividade e descontração. Para o crítico literário Alfredo Bosi, isso demonstra amadurecimento dos movimentos sociais. "Consolidamos uma vitória das diferenças, com o fortalecimento de uma análise crítica caa vez mais profunda. No entanto, é importante lembrar que para levarmos essas alternativas adiante, precisamos de mobilização popular", sustenta.

Dois prêmios Nobel, Adolfo Perez Esquivel e Rigobert Menchú, estiveram presentes para discutir o tema que mais recebeu atenção dos participantes: a construção da paz. Para o argentino, o problema da violência é gerado a partir da exclusão social e da miséria e, para mudar, a sociedade deve lutar pela ampliação dos direitos sociais. "Temos que deixar de ser apenas espectadores passivos", resume.

Além dessas muitas propostas, manifestações, articulações, o Fórum também é um espaço rico em depoimentos. Um dos mais tocantes foi o do médico palestino Mustafá Barghouti. Apelou para que jornalistas e profissionais de saúde fosse até seu país. "Só com a presença internacional poderemos pôr fim à ocupação israelense de forma pacífica", esclareceu. Barghout organiza na Palestina uma equipe de jovens treinados para agir em casos de emergência e na prevenção de doenças. Mas admite que isso é apenas um paliativo e só com o fim da ocupação pode-se pensar numa política séria para a saúde.

Segundo ele, os danos psicológicos da tensão permanente são assustadores: "As complicações durante a gravidez não param de aumentar e as mulheres têm medo de dar à luz. As crianças têm sua capacidade de aprendizagem reduzida e não conseguem dormir à noite. A sensação de impotência é algo brutal", confessa.

O depoimento de Barghouti sobre o drama palestino também faz refletir a respeito do que se passa com o mundo de hoje onde alguns países estão em plena crise econômica, outros em guerra e muitos em situação de exclusão. Mas de alguma forma todos sofrendo com a insensatez do mercado e do suposto Pensamento Único. Nas palavras de Barghouti. "Para nós, a questão prioritária é acabar com a ocupação israelense, mas em outros lugares o principal inimigo é a dívida externa, que também mata".

Não havia no Fórum quem imaginasse que o mundo vai mudar só por desejo, mas de alguma forma os presentes no encontro sonhavam, como fez Frei Beto. "No novo mundo, seremos todos filhos do casamento de Che Guevara com Santa Tereza d'Ávila ou, ainda, da união de Francisco de Assis com Rosa de Luxemburgo. Assim, como irmãos, cuidaremos uns dos outros e nos trataremos de uma maneira mais fraterna."

 

 

O NAVIO DA VERGONHA

"A nau carregada de meninos escravos entre 12 e 19 anos vagueou pela costa africana. Eram 250 escravos ainda crianças, mas de corpo robusto. Vendidos pelos próprios pais pelo preço aviltante de 14 a 28 sestércios, a depender da idade e da força dos braços; comprados a não mais de 100 sestércios por fazendeiros africanos, iriam engrossar as lavouras por um salário que não valeria mais de 30 bilhas de água ao mês: uma bilha por dia."
Poderia ser o começo de um romance sobre a escravidão no século 30 antes de Cristo. Infelizmente não é. Onde se lê nau, leia-se navio; onde se lê bilha, leia-se galão de água; onde se lê sertércios leia-se dólares; transporte-se a cena para Semana Santa, abril de 2001 e terão o quadro triste da escravidão moderna. Escravocratas ainda existem, crianças escravas ainda existem. Há milhares de moças africanas vendidas para a Europa por 50 dólares para trabalhar como prostitutas, crianças vendidas e compradas por menos de 20 dólares no norte da África e, para vergonha nossa, em alguns lugares do Brasil.
Tudo é disfarçado sob formas legais, mas o resultado é o mesmo: prisão nos locais de trabalho, descontos que não dão em nada e moças e rapazes que desaparecem sem deixar vestígio. Tudo isso em pleno século XXI, onde se luta pela sobrevivência das focas e baleias e onde até cãezinhos de estimação ganham festa de aniversário sob o enfoque da mídia.
Seria fácil acusar as autoridades, mas parece-me dever de todos os que possuem computador, e-mail, site, microfone, televisão e folhas de jornal à sua disposição protestarem contra tais atos de barbárie. Ontem um cidadão indignado contra isso nada podia fazer. Hoje podemos. Alguém deve saber o nome dos donos do navio, dos que vendem e dos que compram. Prestaria enorme serviço à humanidade se jogasse isso para o mundo. Que a notícia que desperta curiosidade, também desperte indignação e solidariedade e que se faça alguma coisa para que no desespero os pais não vendam seus filhos, nem haja compradores. Que o mundo se organize como se organiza para salvar as focas e os golfinhos.
A escravidão não acabou. Apenas ficou mais sofisticada. Que o combate a ela também se modernize. A caridade deve ser a de sempre, mas pode e deve ser modernizada. Fale disso no seu site ou no seu e mail.
Pe. Zezinho, scj

 

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